A LINHA

O tempo da tinta

[...] Em 1989 [...] apresentei um grande conjunto de desenhos sobre tipos diversos de papel e em escalas variadas. Esses desenhos eram constituídos de linhas horizontais feitas geralmente em série, pinceladas com nanquim ou com alguma outra tinta igualmente fluida.

Eu dizia que as linhas tinham o tempo da tinta, que ia rareando até terminar o traço. Era como se o que determinava o tamanho do traço fosse a duração da tinta no pincel.[...]Todos eram feitos com o papel estendido no chão. Eu precisava, de alguma forma, estar imersa neles. [...]

o peso do corpo

[...] Até o final desse ano (1991) eu tomaria um novo caminho: desenhos com traços sinuosos em formatos próximos a 150 x 200 cm, tendo o meu corpo como parâmetro. Mais tarde, eu disse que essas linhas tinham o peso do corpo. Eu subia no papel estendido no chão, me debruçava sobre ele e forçava meu peso para traçá-las, à minha volta, com tinta da consistência do guache, uma mistura de cola e pigmento. As partes que ficavam em branco, portanto, eram o lugar onde eu tinha me posicionado para desenhar. Nada era pensado de antemão, eu queria que a intenção coincidisse com a ação, as decisões eram tomadas no momento mesmo de traçar. E isso me exigia uma grande concentração. [...]

a matéria da tinta 

[...] A partir de 1997, tentada a explorar o suporte da tela, de maneira ainda ligada ao desenho, comecei a realizar trabalhos que eram constituídos de linhas sinuosas de tinta a óleo, traçadas com vassoura, em configurações que lembravam os desenhos imediatamente anteriores, deixando aparente o fundo branco da base da tela. Nestes, eu também trabalhava com o suporte estendido no chão, mas sem subir nele, pois eu precisava de ter as telas esticadas no chassis para não perder de vista seus limites. Eu dizia que as linhas, nesses novos trabalhos, passaram a ter a matéria da tinta, pois o suporte da tela, diferente do papel branco, requeria um traço mais forte, mais matérico. [...]

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