Lugar do desenho

Lorenzo Mammì

2013

1

Sem título, 2012

acrílica sobre papel

200 × 170 cm


2

Sem título, 2012

acrílica sobre papel

200 × 170 cm

O desenho está presente em toda a obra de Célia Euvaldo, mesmo nos quadros mais densamente pictóricos: desenho como movimento da mão e do braço e como estabelecimento de um percurso, mas também como traço que marca o limite até onde se pode ir, posiciona no espaço, estabelece um campo de ação. Em alguns trabalhos do começo da década de 1990, a artista se colocava no centro de uma grande folha de papel e traçava linhas pretas, grossas e irregulares ao seu redor. A forma era determinada pela relação, orgânica e não geométrica, entre os traços curvos e um centro que, com a saída da artista, permanecia vazio.


Os desenhos recentes têm certo parentesco com aqueles, e não apenas pela semelhança do suporte. Aqui também, há a delimitação de um território e dos movimentos que são possíveis nele. Nos trabalhos mais antigos, porém, o papel era uma área livre cuja única constrição era determinada pela referência a um centro. Aqui, ao contrário, cada traço é fruto de uma negociação entre os contornos do papel e a posição da artista que se movimenta ao redor e em cima dele. A maneira como os contornos do suporte são retomados, segmentados e deslocados pode lembrar procedimentos de desconstrução minimalista; mas a densidade e a tensão dramática dos traços remetem a uma poética expressionista. A formalização é propositadamente falha, como nos gestos enrijecidos de uma pichação.


Referências desse tipo, porém, ainda que ajudem a entender o “material” conceitual com que essas obras são construídas, talvez não alcancem seu verdadeiro cerne. Há, na arte brasileira recente, uma preocupação constante com o espaço pictórico ou, mais em geral, o espaço da obra. Ele não é dado de antemão, como em outras tradições artísticas. Não é um lugar comum já estabelecido, que seja suficiente ocupar ou, eventualmente, questionar. É preciso reafirmá-lo constantemente, e isso envolve o engajamento direto do artista, corporal e psicológico. Suspeito que a constituição do espaço pictórico seja a questão central de todo o trabalho de Célia Euvaldo. É sua presença discreta, ao mapear pacientemente a superfície do suporte, e não uma estrutura preexistente, quem garante a existência objetiva da obra. Desenhos e pinturas definem o terreno em que eles mesmos se assentam. Varrendo a superfície da tela, a vassoura-pincel gera o espaço que percorremos com os olhos. Os traços, mesmo quando são muito largos e densos, nunca deixam de ter uma direção. A obra é o lugar assim conquistado, em suas características essenciais — sem cores, sem gestos que não sejam simples.


As colagens falam das mesmas questões, com estratégia análoga: dois formatos padrão — um retângulo maior em papel leve e semitransparente; um menor, preto e rígido — são superpostos, explorando variantes em suas relações recíprocas. Um procedimento que, em princípio, seria de matriz construtiva (Malévitch), é tensionado pela diferente consistência material dos os elementos, que faz com que o menor (objeto) deforme o maior (espaço), no qual se acomoda de maneira meio desajeitada, às vezes fugindo um pouco pelas bordas. O sentido formal se estabelece, então, pelo desencontro dos elementos, e não por seu arranjo. E é tanto mais rico enquanto, no equilíbrio que afinal se realiza, permanece certo inconformismo das partes em relação ao todo.


Texto publicado no fôlder “Desenhos e colagens”, Galeria Raquel Arnaud, São Paulo, 2013