O incerto preto no branco

Ronaldo Brito

2009

O fazer do trabalho não poderia ser mais austero e casual: a artista varre a tinta espessa, o óleo preto ou branco, e raspa com o rodo certas áreas do quadro até deixá­las lisas e compactas. Duas e só duas operações resumem portanto o seu labor, a um tempo bem físico e ascético. Tudo se passa como se, diante de infinitas escolhas, Célia Euvaldo encontrasse na extrema redução a abertura de um campo de possibilidades: o seu campo de atuação, em todo caso. E, graças a esse poder de concentração, viesse a se expandir. Porque a natureza de seus quadros é, de fato, expansiva: eles acumulam uma energia plástica que tende a ganhar espaço indefinidamente.


Não que se apresentem como uma força expressiva incontrolável, a dividir o mundo com sua presença exorbitante. Eles assomam resolutos, encorpados, à superfície do real mas o seu ímpeto lírico tem algo de pacificador. O que deriva, sem dúvida, de seu modus operandi — ele exige um controle acurado de massas e volumes que não podem se destacar, saltar do plano, e devem se coadunar com o vazio. Juntos, criam uma forma no limite do informe. Uma presença é sentida ao máximo quando pode, a qualquer momento, ausentar-se. O próprio do trabalho de Célia Euvaldo é justamente atuar entre o cheio e o vazio, o excesso e a falta, e assim provocar uma presença que inclui a sombra de sua ausência. O quadro que invade o espaço e se impõe ao nosso olhar é o mesmo prestes a subtrair-se, na iminência de indiferenciar-se. Em parte pela recusa deliberada de fixar uma imagem. Adivinhamos até que o dilema de seu processo de produção, entre o serial e o cíclico, entre o tempo neutro da indústria e o tempo maturado da agricultura (1), consiste sobretudo em decidir-se e redecidir-se acerca de identidades formais muito ou pouco definidas — toda a sabedoria, a poesia, será atinar com o grau certo, isto é, incerto, de definição formal.


Nesse sentido, os quadros brancos corrigem a nossa percepção educada pelos trabalhos em preto e branco, que naturalmente absorvem a atenção inicial — fugidios, eles pedem um exame detido, cuidadoso, de seu acidentado percurso formal. Aí vemos com clareza como, atraída por forças opostas — sempre no eixo horizontal-vertical —, a tinta se concentra, quase uniforme, ou se dispersa, aqui e ali se acumula. A ação da vassoura e do rodo se alternam, contrapõem-se, sob o comando de uma lei formal que só legisla no prazo desse exercício sem protocolos. Daí a aparência fortuita mas irretocável típica dos quadros brancos, como se fossem coisas preciosas achadas ao acaso. O que chega a intrigar considerando a lógica planar, anti-ilusionista, que governa a obra.


Eis o momento de chamar de volta os quadros pretos e brancos para que venham, por sua vez, corrigir nossa eventual leitura fantasiosa e lembrar tudo o que há de corpóreo, todo o empenho de dessublimação que move o trabalho. E que o levou afinal ao domínio de semelhante escala física, a transformar o quadro, literalmente, num campo de ação. Tomaria um dia inteiro recapitular tudo o que deve, tudo o que o distingue da action-painting. Resumamos: a action-painting é, seguramente, condição de possibilidade para esse gênero de manobra que já guarda pouco ou nada do gesto agônico, intempestivo e irrepetível, que presidia aquela grande pintura do pós-guerra.


Também aqui a arte obedece a certo impulso vital irreprimível, o quadro é que já não representa um desafio único e mortal. Ele se resolve de golpe, joga sua sorte sem preâmbulos, por certo demanda um corpo pensante, uma vez que não é produto de saber artesanal, muito menos de programas conceituais. Porém, se aí investimos valores míticos, sublimes, ou, pior ainda, procuramos supostos índices performáticos, as manobras da artista revelam-se desarmantes — elas são por demais corriqueiras, terra-a-terra, não fosse a pintura feita no chão. Não impede que essa arte detenha, e isso lhe seja inerente, uma carga de urgência, como se vencesse algum obstáculo, alguma prévia inibição, para vir a ser. Mas cultiva a sua reserva de paciência, aprende a aguardar o instante propício, atenta a Kairós, a hora madura e oportuna de entrar em ação. E isso se transmite ao nosso olhar que sente nesses pesados deslocamentos, nesses deslizamentos e acúmulos de tinta um tempo estético indecidível, preciso e evasivo, circunstancial e duradouro. Uma atividade a tal ponto obstinada, sempre inconclusa, depende de um Eu paciente, perito em avaliar as consequências formais de seus gestos. A faculdade de discernir, escolher e discriminar é indispensável a uma empresa que inclui de maneira radical o fator chance, que divide com o acaso tamanha cumplicidade.


De novo, por convocarem uma percepção descentrada e hiperatenta, as telas brancas estão especialmente aptas a mostrar como o Eu do trabalho, ao liberar o acaso das ocasiões formais, compromete-se com o juízo prático da prudência, com a delicada disciplina de selecioná-las. Toda ação compreende uma pausa de observação. Rotina poética que rege o fazer de cada quadro em particular — visivelmente, eles não operam sínteses, resultam muito mais uma súmula de decisões e contradecisões em que acabam expostos, um tanto inseparáveis, os lances construtivos e as marcas do acaso. E se as marcas aí permanecem, parte integrante da obra, foram processadas como tal.


Essa imponderável soma de irregularidades e intensidades é coextensiva, entretanto, a um padrão de ordem, quase no limite do geométrico. Ou reconhecemos a sua força latente, a constância de uma pressão estrutural, ou ficamos pelo meio do caminho na experiência do trabalho de Célia Euvaldo. E é uma pressão de ordem que não precede, nem sucede às suas rápidas e despojadas operações — ela as acompanha do princípio ao fim embora a artista resista o quanto possa à tutela dessa ordem coerciva que tende fatalmente a gerar gestalts, configurações estáveis. Ou seja, tudo o que contraria o ânimo vital de um trabalho que se repete só para redescobrir-se. Porque, com recursos propositalmente escassos, meios e modos tão estritos, ele busca o inesperado: repetir a surpresa de seu acontecimento. Singular espécie de acontecimento, súbito e ainda assim demorado, espesso, aberto a circunstâncias e contingências e, no entanto, destinado a durar.


(1) Em observação inspirada, Lorenzo Mammì compara os quadros de Célia Euvaldo ao jardim zen (catálogo da exposição da artista no Gabinete de Arte Raquel Arnaud, São Paulo, 2001).

Texto publicado originalmente no catálogo Célia Euvaldo. Rio de Janeiro/São Paulo: Galeria de Arte Ipanema/Gabinete de Arte Raquel Arnaud, 2009